Como o Atlético-MG construiu uma das SAFs mais valiosas do Brasil — e o que falta para transformar isso em títulos?

O Atlético-MG entrou na era SAF com um objetivo claro: transformar um clube historicamente competitivo em um projeto sustentável e capaz de brigar por taças com frequência, sem viver no limite financeiro a cada temporada. O resultado institucional é inegável: hoje, o Galo aparece como a SAF mais valiosa do país em estudos de valuation, apoiado por ativos próprios e uma estrutura que poucos clubes brasileiros conseguem replicar.

Na prática, a discussão que o torcedor faz — e que domina as mesas-redondas e as redes — é sempre a mesma: como essa força institucional se converte em títulos? No meio desse acompanhamento cotidiano do futebol, muita gente cruza notícias, bastidores e desempenho em campo e, em conversas de torcedor, referências como código promocional Betano acabam aparecendo no feed junto da cobertura esportiva, mas o ponto decisivo continua sendo a bola: o Atlético tem uma SAF forte, só ainda não conseguiu transformar esse “tamanho” em taças na mesma proporção.

A história recente do clube deixa um cenário nítido: a SAF acelerou a capacidade de estruturação, ampliou o patrimônio esportivo e ajudou a criar uma base de receita com a Arena MRV. O desafio, agora, é fazer essa base se traduzir em regularidade competitiva e conquistas em campeonatos longos e mata-matas.

O desenho da SAF: valuation alto, aporte grande e governança “mista”

A SAF do Atlético foi aprovada pelo Conselho Deliberativo em 20 de julho de 2023, com o clube avaliado em R$ 2,1 bilhões e a promessa de um aporte de R$ 913 milhões — um dos marcos do projeto desde o início. A Associação manteve 25% da SAF, enquanto os investidores (Galo Holding) ficaram com 75%.

Esse desenho “misto” aparece também na governança: o clube estruturou um Conselho de Administração com cadeiras da holding, da Associação e um membro independente, buscando equilíbrio entre o controle do investidor e a preservação de interesses esportivos e institucionais. Isso é relevante porque, no futebol brasileiro, muita SAF vira um projeto de comando centralizado; no Atlético, a transição nasceu com uma arquitetura mais negociada.

Já em 2025, a própria SAF precisou adaptar regras internas para continuar crescendo. O Atlético aprovou a alteração da chamada cláusula antidiluição, reduzindo o patamar mínimo que a Associação poderia manter em caso de aumentos de capital — movimento pensado para facilitar captação e entrada de novos investidores.

Por que a SAF do Galo vale tanto: ativos próprios e Arena MRV como motor

O Atlético não virou “SAF forte” apenas por reorganização societária. A valuation elevada é sustentada por algo muito objetivo: ativos próprios. O próprio clube citou o peso de infraestrutura e patrimônio — com destaque para a Arena MRV e controle do estádio — como fatores centrais na avaliação de 2025, que coloca o Atlético em R$ 3,4 bilhões e como a SAF mais valiosa do Brasil.

E a Arena MRV não é discurso: ela já entrega números concretos. Em 2024, segundo documentos do próprio Atlético, a Arena sediou dezenas de jogos oficiais e gerou R$ 88,1 milhões de receita bruta no ano, com média de público acima de 34 mil e margem líquida alta na operação.

O efeito esportivo e financeiro de ter “casa própria” aparece também quando o Atlético não consegue usar a Arena. Em 2025, com jogos fora da MRV em parte do calendário, o clube relatou queda forte de bilheteria em comparação ao período em que mandava partidas no estádio, mostrando como a Arena virou peça central do modelo de receita recorrente.

O paradoxo esportivo: o Atlético chegou perto, mas títulos grandes não vieram na mesma medida

O Atlético tem um passado recente que prova capacidade de levantar taça: em 2021, o clube foi campeão da Copa do Brasil, e aquele ciclo ficou marcado como um pico de performance e competitividade.

Depois, já com o projeto SAF amadurecendo, o Galo também viveu campanhas que reforçam o “quase”. Em 2024, por exemplo, o Atlético foi vice da Copa do Brasil, perdendo a final para o Flamengo no agregado (derrotas no Rio e em Belo Horizonte).

E no cenário continental, o exemplo mais simbólico foi a final da Libertadores de 2024: o Atlético chegou à decisão e acabou derrotado pelo Botafogo por 3–1, um jogo que virou referência justamente por mostrar como, em mata-mata, detalhes — e momentos — pesam mais do que orçamento.

O que falta para transformar valuation em taça: futebol “de projeto”, não só de temporada

O primeiro ponto é simples e costuma ser subestimado: continuidade técnica e de modelo de jogo. Projetos campeões no Brasil, em geral, conseguem passar meses (às vezes anos) sem recomeçar do zero a cada oscilação. O Atlético, nos últimos ciclos, alternou fases de grande performance com quedas bruscas — e isso custa caro em mata-matas e também em corridas longas de Brasileirão.

O segundo ponto é montagem de elenco com lógica de temporada inteira. O valuation e a estrutura permitem ao Atlético ter um grupo forte, mas o futebol brasileiro cobra profundidade: lesões, suspensões, calendário, viagens e jogos decisivos em sequência. A diferença entre “elenco caro” e “elenco campeão” muitas vezes está no número de soluções confiáveis por posição, não apenas em 11 nomes.

O terceiro ponto é alinhar o motor institucional (Arena, captação, governança) com uma rotina esportiva que elimine “semanas perdidas”. A Arena MRV já provou impacto — em público, renda e ambiente — e até em desempenho (aproveitamento relevante e números de vitórias no estádio), mas o Atlético ainda busca transformar essa força de mando em regularidade de campanha e em noites decisivas sem desperdício.